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Durante uma semana, a reportagem da Folha ouviu histórias de quem vive nas ruas da capital

 

Em paradas de ônibus, nas escadarias dos viadutos que atravessam a avenida Nove de Julho, nos viadutos de bairros residenciais e debaixo do Minhocão, nos arredores da estação da Luz, pelas ruas que levam à avenida Paulista, nas vielas do Anhangabaú, nas praças ou no Pátio do Colégio, coração do centro da cidade.

A paisagem de São Paulo esconde vários sujeitos enrolados em cobertores, debaixo de casas improvisadas com pedaços de madeira, plásticos ou papelão. Os pedestres que passam por eles, acelerados, não prestam atenção. Só notam o volume na calçada se atrapalha o tráfego.

O número de pessoas em situação de rua na capital paulista cresceu 25% nos últimos três anos, de acordo com a estimativa da prefeitura municipal. O levantamento anterior, publicado em 2015, apontava 15,9 mil pessoas vivendo nas ruas. Hoje, calcula-se que o número chegue a 20 mil. Por isso, o próximo censo, previsto para 2020, foi antecipado para o ano que vem.

Durante uma semana, a reportagem da Folha percorreu diversos pontos da cidade para ouvir as histórias de algumas dessas pessoas invisíveis.

‘Nas ruas, eu sofro por amor e por outras coisas também’

Perseguida pelo ex-marido, Joelma está apaixonada por outro homem

Não passava de meio-dia quando um homem tentou ir com Joelma, 40, a um hotel. Ele havia prometido levá-la a um lugar onde ela pudesse tomar banho. No caminho, disse que queria “fazer sexo a noite inteira”. Ela o rejeitou e voltou sozinha ao ponto em que havia passado a noite, nas escadas do monumento do Pátio do Colégio, no centro.

Chegou trêmula e sem fôlego, mas não soube dizer por que tremia. Um homem que havia dormido próximo ao ponto disse que o tremor era efeito de abstinência do álcool. Ela contou que realmente bebe muito para aguentar a vida nas ruas da cidade, em que teme ser vítima de estupro.

Joelma explica que veio de Santos há dez anos fazer um curso de roteiro, que não chegou a realizar. Ela dorme na rua há um mês, por querer distância do ex-marido, agressivo, e, segundo ela, por não encontrar vaga em abrigos. Prefere o Centro porque avalia que recebe mais doações de alimentos.

Não é qualquer lugar em que ela pernoita, porém: na noite anterior, tinha planos de dormir na avenida Dom Pedro I, também no centro. Foi abordada por outro homem em busca de sexo, então decidiu mudar de ponto.

Não foi o único homem de quem fugiu. Segundo ela, o ex vive em um quartinho no bairro Santa Cecília e às vezes a vê pela rua. Faz um escândalo, puxa-a pelo braço e pelo cabelo. Ela não gosta mais dele, e não pretende retomar o relacionamento.

Joelma não tem namorado, mas explica que outras mulheres em situação de rua que conhece procuram um parceiro para protegê-las. Ela está apaixonada por um homem que promete levá-la para longe -sorri quando fala dele, mas diz sofrer.

Sofrer por amor?

“Sim, mas por outras coisas também.”

‘Se alguém me oferecesse uma cura, aceitaria na hora’

Nas ruas desde os 15 anos, Jonas conta os dias longe do crack

Embaixo do Elevado Presidente João Goulart, uma Bíblia repousa, aberta, sobre uma mala de rodinhas. Seu dono, Jonas Aparecido Dias, 29, diz não ser religioso, mas foi três vezes à Igreja Universal do Reino de Deus nos últimos meses. Em todas, sentiu que os fiéis o olhavam torto, mas não ligou. “Deus disse: ‘Vinde a mim como estais’. Foi o que fiz.”

Jonas está há cerca de um ano na rua. Ele vai e volta, porém, desde os 15, quando começou a usar drogas. Na época, saía de casa por um ou dois dias, em geral depois de brigar com o pai. À medida em que o vício se intensificava, passava cada vez mais tempo longe de Taquacetuba, em São Bernardo do Campo, onde nasceu.

Começou a praticar pequenos furtos: quebrava o vidro dos carros para roubar os aparelhos de GPS, arrombava comércios. Acabou preso em 2010. Na cadeia, conseguiu se afastar do crack. “Lá dentro só tem pó e maconha.” Saiu cinco anos depois, diretamente para as ruas.

Há dez dias, Jonas descobriu que o pai tinha morrido de febre amarela. Conta os dias longe das drogas desde então. “Quero sair. Se alguém me oferecesse uma cura, aceitaria na hora”, diz.

O objetivo é reencontrar-se com a mãe, Angelina, empregada doméstica em uma residência no Itaim. “O que eu tinha em casa, muita gente queria ter”, diz Jonas. Angelina chegou a pagar sete meses de internação para o filho em uma clínica de reabilitação. Ele fugiu do lugar, mas hoje se arrepende.

O versículo citado por Jonas não existe na Bíblia, embora seja muito popular na comunidade evangélica. A passagem original, Mateus 11:28, diz: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei”.

‘Não quero que meus filhos me vejam deste jeito’

Usuária de drogas e mãe de oito, Jaqueline está há dois anos longe de casa

Jaqueline Rodrigues Borges, 41, não vê os filhos há dois anos. Quatro meninos e quatro meninas, eles estão aos cuidados da sogra, na zona leste da cidade. Ela mantém contato por telefone, mas prefere não visitá-los. “Não quero que me vejam deste jeito”, diz.

É ao caçula de cinco anos que Jaque, como gosta de ser chamada, destina o Bolsa Família que recebe mensalmente. “Não estou lá, né? Tenho que ajudar”, afirma.

Já o benefício do atual companheiro, Careca, é todo gasto com drogas. “Crack, maconha, farinha, álcool”, lista. O casal divide uma garrafa de cachaça enquanto conversa com a reportagem.

Os dois se conheceram na rua há um ano. “Pedi um cantinho na chuva. Só quando acordei vi o tamanho desse nariz”, brinca Jaque, apontando para o nariz de Careca. Apesar do afeto, há uma razão pragmática por trás da união. “Quando tem homem acompanhando, os outros nem chegam perto”, diz.

Para sobreviverem, pedem dinheiro na rua e limpam a carrocinha de um pipoqueiro. O serviço lhes rende cerca de R$ 15 por semana. Quando a situação aperta, diz Jaque, roubam um ou outro item do supermercado.

Também costumam ganhar sobras de um açougue próximo, assadas em uma churrasqueira improvisada debaixo do Elevado Presidente João Goulart. É lá, protegidos da chuva, que dormem.

Jaque abortou duas vezes nos últimos meses. Por causa de um mioma, tumor benigno que cria uma massa no útero, parece estar grávida de novo. Além disso, desenvolveu uma hérnia. Está na fila do SUS para operar.

A família já tentou interná-la em uma clínica de reabilitação, mas ela fugiu. “Eles te deixam xarope, te enchem de remédio. Não dá”, diz.

Fonte: Folha de São Paulo

Na manhã desta sexta-feira 14 cerca de 20 homens da Guarda Civil Metropolitana (GCM) invadiram, de forma truculenta, o Centro Comunitário São Martinho de Lima, na Mooca, zona leste de São Paulo. Segundo testemunhas, o tumulto começou ainda na rua, quando guardas tentaram recolher os pertences de um grupo de moradores de rua. Chovia forte no momento da ação.

O padre Júlio Lancellotti, membro da Pastoral Povo da Rua, foi chamado quando o tumulto aumentou e os guardas começaram a agir com violência. Segundo o padre, os guardas o reconheceram, referindo-se a ele como “padre de merda”.

“O reforço da GCM veio com bala de borracha, bomba de gás e pistola de choque para o confronto com o povo de rua”, informou padre Júlio, com a voz abatida. “Eles bateram com cassetete, deram socos e cuspiram, inclusive em mim”.

Assustados, algumas vítimas reagiram com pedras e outros fugiram para o Centro São Martinho, uma organização católica que acolhe diariamente pessoas em situação de rua. “Tentei conversar para impedir que invadissem, mas não funcionou”, contou Lancellotti.

Segundo ele, o confronto foi violento e a GCM invadiu direcionando gás de pimenta aos funcionários e às pessoas acolhidas pela instituição. “Entraram na cozinha e no banheiro, onde estavam as mulheres que ficaram assustadas. Eles foram muito agressivos e houve um confronto muito forte”, explicou.

O gerente administrativo da São Martinho, Emerson Ricardo Ferreira, não estava no local quando o confronto ocorreu, mas conversou com testemunhas e vítimas. Segundo ele, em 28 anos de funcionamento da instituição algo dessa gravidade nunca havia ocorrido.

“Não posso falar sobre o que ocorreu na rua, mas a truculência aqui dentro partiu apenas da GCM. Todos tentaram apaziguar a briga, menos a GCM. Eles entraram com escudos e armas, não houve qualquer tipo de diálogo”, contou Emerson, que também assistiu às gravações. Segundo ele, no momento do ocorrido, havia aproximadamente 30 funcionários e 400 pessoas em situação de rua acolhidas, dentre elas jovens, crianças e mulheres.

Ambos os entrevistados ainda tentam entender o que motivou uma invasão tão violenta. O padre acredita que os guardas tinham como alvo um rapaz que estava entre o grupo que foi agredido ainda na rua.

Segundo Emerson, o Centro São Martinho publicará uma nota de repúdio e fará um boletim de ocorrência. Lancellotti também informou que o Ministério Público entrou em contato, pediu as gravações e um promotor foi contatado. Segundo o padre, o Coronel José Roberto, da Prefeitura de São Paulo também foi informado e alegou que há feridos em ambas as partes.

Já é uma prática conhecida da Prefeitura a retirada de cobertores, roupas, papelões e barracas da população em situação de rua, que necessita desses pertences para se proteger do frio.

Padre Júlio relatou que as ações truculentas por parte da GCM tem sido frequentes em toda a cidade. “Hoje a gente sofreu o que os irmãos de rua sofrem todos os dias: pancadaria, xingamentos e a tomada de pertences”, contou Emerson.

Procurada por CartaCapital, a Guarda Civil Metropolitana não respondeu até o momento da publicação desta matéria.

#Aovivo Entrevista com Padre Julio Júlio Renato Lancellotti

Posted by Adriano Diogo 13222 on Friday, September 14, 2018

O MPSP obteve, na noite de terça (31/7), no tribunal do Júri de Guarulhos, a condenação de dois homens que tentaram matar um morador de rua em março de 2017. Todos eles viviam na região central da cidade e acabaram se desentendendo. Os acusados e um terceiro indivíduo ainda não identificado armados com barras de ferro e de caibros de madeira partiram  para cima do ofendido para espancá-lo.
A vítima correu por dois quarteirões, mas acabou sendo alcançada pelos homens. Após ter sido atingida por várias vezes, o morador de rua acabou caindo e continuou sendo golpeado pelos três. Após ter ficado prostrado, os agressores pararam de bater e saíram andando normalmente.
Instantes depois, dois deles foram presos e identificados pela Guarda Municipal que acompanhou parte da agressão por intermédio de uma câmera de vigilância que monitora a região. O terceiro agressor tomou rumo diverso e não foi mais localizado.
No júri, os réus sustentaram que não quiseram matar a vítima e que teriam agido para se defender, uma vez que o ofendido teria puxado uma faca para eles.
O promotor do caso, Rodrigo Merli Antunes, refutou todas as teses da defesa e obteve a condenação dos réus por tentativa de homicídio duplamente qualificada (com meio cruel e mediante recurso que dificultou a defesa da vítima). Santiago Romulo de Oliveira Prata, por ser multirreincidente, foi condenado a 18 anos de reclusão. Já Michael Pena da Silva, que era primário, foi condenado a 10 anos e 08 meses de prisão. Os dois já estavam presos.
Segundo o promotor, a exibição aos jurados dos objetos utilizados no espancamento foi decisiva para a demonstração da vontade de matar dos agentes. Matérias televisivas exibidas ao júri corroboraram a versão do MPSP.

Fonte: Ministério Público de São Paulo

Um morador de rua de Santos, no litoral de São Paulo, bombou na web após passar por um ‘dia de beleza’ nas mãos de um cabeleireiro da cidade. Uma das imagens, com o ‘antes e depois’ do rapaz, acabou viralizando, já que a aparência do homem foi completamente transformada.

A iniciativa partiu de Alex Gomes da Silva, de 42 anos. Nascido e criado em Santos, o barbeiro se dedica há pelo menos 15 anos em doar tanto o serviço de corte de cabelo quanto a distribuição de sopa a moradores de rua.

Na tarde desta terça-feira (31), porém, Gomes decidiu atender a um pedido de uma amiga, que costuma entregar almoço para o morador de rua registrado no cruzamento das avenidas Washington Luís com Francisco Glicério, no bairro Gonzaga.

“Sabemos que o nome dele é Jovino, e que ele costuma dormir em um albergue aqui da cidade. Já o conhecemos por ele ser fechado, mas foi um dos moradores de rua mais gratificantes de atender”, contou ele ao G1.

O registro feito pela esposa, que também o ajuda nos cortes, ganhou as redes sociais. “Ele não fala, só se expressa por gestos. Mas, aos poucos, foi ganhando confiança e abriu um sorriso quando viu o antes e o depois dele. Isso não tem dinheiro que pague”, conta.

Quando não está se dedicando a ajudar outras pessoas, Gomes atua em seu salão de cabeleireiro, onde também dá aulas de barbearia. Os alunos também participam do projeto, intitulado “Equipe Mãos de Tesoura”.

“Não é só aprender [a cortar cabelo], e sim, ajudar. Fazemos um trabalho bonito, que gera um choque de realidade. Costumamos conversar, perguntar o nome, se têm família, o que fez com que eles fossem para as ruas. Muitos não dizem. Mas, geralmente, é a única conversa que eles têm”, diz.

Recordação da infância

A iniciativa de oferecer sopa e corte de cabelo a moradores de rua nasceu graças a uma lembrança da infância. Gomes conta que, quando pequeno, ao lado da mãe e de seus cinco irmãos, chegou a passar necessidades.

“Para que a gente não passasse fome, nossa mãe nos levava a albergues, onde tomávamos sopa ou comíamos a comida do dia. Anos depois, graças a Deus, tive a oportunidade de servir àqueles com quem já me sentei”, relembra.

Gomes perdeu a mãe há um ano. “Queria que ela visse isso tudo”, diz ele que, quinzenalmente, ao lado da esposa, Jéssica Daval, e dos alunos de barbearia, distribui a boa ação desde o cruzamento onde encontrou Jovino até a região próxima ao Mercado Municipal, no Macuco.

“Minha esposa fica no carro, onde colocamos as panelas de sopa, e posicionamos cinco cadeiras ao lado do carro, na calçada, onde cortamos o cabelo e servimos a comida. São 300 sopas, 300 pães e 300 sucos, além de cobertores. Preparo tudo em casa”, conta.

Para financiar o projeto, Gomes arca com recursos do próprio bolso, já que nem sempre donos de comércios e outras pessoas aceitam ajudar. “Peço nas redes sociais, mas costumo tirar do bolso. Hoje, tenho a ajuda de um amigo, mas é um trabalho grande”, explica.

Mesmo nobre, ele lamenta que a iniciativa seja vista com maus olhos por algumas pessoas. “Muitos reclamam que estamos ajudando vagabundos. Tem que dar, doar, de coração”, justifica. “Conforme você planta, vai enraizando o bem”, finaliza.

Fonte: G1

Às 10h, pontualmente como os sinos da catedral, o mais antigo engraxate da praça da Sé abre os trabalhos daquele dia.

O alagoano Lucas Paulino, 85, elegante com seu chapéu de feltro, está lá desde 1954, o ano do 4º Centenário de São Paulo, quando deixou Palmeira dos Índios para arriscar a sorte na cidade grande.

Antes de atender o primeiro freguês, que já está à sua espera, Paulino cumpre calmamente o velho ritual de preparar seu local de trabalho como se fosse uma mesa cirúrgica.

Paulino começa a falar sem esperar a primeira pergunta.

“São Paulo acabou. O Brasil acabou, rapaz. Estou sentindo muito pelos meus bisnetos. Quando cheguei aqui só tinha metade da catedral, foi o Juscelino quem deu o dinheiro para fazer as torres. Meus fregueses usavam terno, gravata e chapéu, era todo mundo muito educado, muito respeitoso. Depois foi mudando tudo, tudo para pior.”

De seu posto de observação no centro da praça, próximo ao Marco Zero da cidade, onde agora uma indigente embriagada está tomando banho de sol num biquíni improvisado, e falando sozinha, Paulino foi vendo a degradação da paisagem humana do velho centro, ano a ano.

Agora, olhando em volta, só vê pivetes andando descalços para lugar nenhum, moradores de rua jogados no chão no meio do lixo, drogados lavando roupa e tomando banho na água suja dos espelhos-d’água, um monte de guardas com diferentes uniformes circulando por todo lado, pastores pregando para ninguém, homens-placa que compram ouro, gente correndo e se espalhando para todo lado quando o helicóptero da polícia sobrevoa a praça.

É a turma da “feira do rolo” itinerante, onde se compra, vende e troca produtos roubados, que se desloca no contrafluxo da polícia, um jogo de gato e rato em clima de constante beligerância.

Em volta do engraxate, sacos de lixo avolumam-se nas calçadas à espera da coleta, junto a pilhas de papelão que servem de cama, cobertores rotos largados no chão, onde muitos ainda dormem no final daquela manhã.

Durante dois dias, a reportagem percorreu 105 km pela região central, onde o ex-prefeito João Doria (PSDB) instalou o projeto Cidade Linda, logo no início do seu mandato de 15 meses.

O slogan contrasta com a realidade das ruas. A praça da Sé nem é o pior exemplo.

A poucos quilômetros dali, no entorno das estações da Luz e Júlio Prestes, onde ficam a Sala São Paulo, a Pinacoteca e o Museu da Língua Portuguesa, o cenário é o de uma cidade abandonada no pós-guerra, no embate permanente entre as forças da ordem e a crescente população de rua, nas calçadas, sob os viadutos e nas praças, arrastando suas tralhas em carroças e carrinhos de supermercado.

Em maio de 2017, após uma grande operação policial, o então prefeito Doria chegou a anunciar o “fim da cracolândia”, mas na verdade deu metástase nesta grande tragédia humana provocada pelo consumo de drogas ao ar livre.

Ela se espalhou por minicracolândias, chegando a Campos Elíseos, Santa Cecília, Barra Funda, Bom Retiro e até Higienópolis, deixando um rastro de sujeira, conflitos e miséria, em meio a um fedor insuportável.

Drogados em fuga permanente agora disputam lugar nas calçadas com famílias de moradores de rua, misturando os “noias” com crianças e idosos das legiões de sem-teto.

É preciso cuidado para ver onde se anda para não pisar nos que passam o dia dormindo nas sarjetas. Na rua Conselheiro Nébias, junto à linha do trem que vai para a Júlio Prestes, dezenas de armazéns abandonados com placas de vende-se e aluga-se estão cercados de sacos de lixo, entulho de obras, pallets e restos de fios de cobre desencapados nas calçadas.

Em volta do Complexo Cultural da Funarte, órgão do Ministério da Cultura, que ocupa todo um quarteirão na rua Apa, em Santa Cecília, mulheres botam para secar roupas e cobertores, enquanto servem comida para os filhos e espantam os cachorros com fome.

Nas floreiras recentemente instaladas na rua dos Gusmões, só não se encontram mais flores: viraram depósito de roupas e servem de cama para os moradores de rua.

Mais adiante, o som do “breganejo” no último volume é o fundo musical das calçadas ocupadas por bancas de marreteiros, que apregoam aos gritos relógios e óculos paraguaios. Depois de uma breve trégua, os camelôs voltaram.

Mas o barulho não é capaz de fazer acordar o homem que dorme um sono profundo na calçada da rua Vitória, sem notar que deitou em cima de um monturo de lixo.

Nas calçadas da Pinacoteca, da Secretaria da Cultura, e do Parque da Luz espalham-se outras minicracolândias com suas barracas formadas por cobertores e papelão.

Ruas são fechadas diariamente pela PM e pela Guarda Municipal para dar segurança aos funcionários da limpeza pública que atiram jatos de água nos fluxos incessantes de drogados.

As cenas lembram o movimento em campos de refugiados na Europa ou dos primeiros anos do garimpo de Serra Pelada, no Pará, em que milhares de miseráveis disputavam migalhas de ouro numa louca corrida pela sobrevivência.

Em SP, tudo gira em torno de alguns gramas de crack, o combustível que move este circo de horrores e só faz crescer a sensação de insegurança de quem mora ou circula por estes pontos históricos da “Cidade Linda”.

À medida em que o desemprego e a miséria humana aumentam, cresce também a revolta desses drogados misturados com sem-teto que não podem ver um fotógrafo por perto, e já começam a xingar e jogar pedras. Nesta guerra sem quartel, todos são inimigos de todos, a começar pela imprensa.

​“É melhor você sumir daqui, se não pode colocar em risco a minha vida e a sua”, recomendou um guarda municipal ao repórter-fotográfico Jorge Araujo, da Folha, que registrava um confronto na alameda Cleveland, na terça (17).

No último censo realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), em 2015, havia 15.905 pessoas em situação de rua.

Para atender a esta população, a prefeitura diz manter 104 centros de acolhida, disponibilizando mais de 14 mil vagas de acolhimento, 4,5 mil delas criadas na atual gestão.

Segundo a gestão Bruno Covas (PSDB), desde junho de 2016 mais de 1 milhão de atendimentos foram feitos pela Secretaria de Assistência Social. “A equipe socioassistencial realiza a busca ativa diariamente, mas não pode obrigar as pessoas a irem aos equipamentos”, diz. Em apoio às redes de atendimento, equipes de zeladoria fazem a limpeza da região da Nova Luz três vezes ao dia e recolhem dez toneladas de lixo, em média.

Fonte: Folha de São Paulo

ROMA — A “Lavanderia do Papa Francisco” abriu as portas em abril de 2017 em Roma para que indigentes e pessoas sem teto possam lavar e passar suas roupas, anunciou o Vaticano.

A lavanderia, administrada por voluntários, encontra-se em uma das sedes da organização católica Comunidade de Sant’Egídio, no bairro de Trastevere, em Roma. Com esta contribuição, o Papa apoia pessoalmente ações da comunidade católica, que há anos ajuda os pobres da capital italiana.

Trata-se de um novo serviço oferecido pela Santa Sé para os pobres da capital italiana, que já contam com chuveiros para banhos, cabeleireiro, vestuário, centro médico e um ponto de distribuição de artigos de primeira necessidade, que o Papa argentino apoia pessoalmente como gesto de caridade.

Este novo serviço ajuda a “dar dignidade a tantas personas que são nossos irmãos e irmãs”, explicou a Esmolaria Apostólica.

Fonte: O Globo

Sentado na calçada quase em frente ao abrigo da prefeitura no Vale do Anhangabaú, na região central de São Paulo, Vitor Hugo Pacheco, 22, conta que foram poucas as noites em que conseguiu trocar as calçadas por uma das 116 camas no endereço. “Nunca tem vaga”, diz ele, que vive nas ruas desde os 16 anos.

Em uma recente tentativa, ele conta que não conseguiu uma vaga para dormir, mas, ao se distanciar da porta após insistir com um segurança para deixá-lo entrar, viu um cobertor ser lançado pela janela do abrigo por um dos ocupantes, que se solidarizou com sua situação. “Pelo menos não passei tanto frio naquela noite.”

Assim como Pacheco, a Folha presenciou outros moradores de rua nas últimas semanas que bateram na porta do CTA (Centro Temporário de Acolhimento) Anhangabaú e não conseguiram entrar.

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O segurança que fica na porta é orientado a exigir um encaminhamento —papel distribuído por equipes da Secretaria de Assistência Social que circulam por pontos de maior concentração de moradores de rua. Os papéis são distribuídos conforme a quantidade de vagas disponíveis nos abrigos e, sem a autorização, quem bate na porta é orientado a procurar outro lugar.

A regra tem sido mantida pela gestão Bruno Covas (PSDB) mesmo durante as madrugadas com baixas temperaturas registradas na capital.

O secretário de Assistência Social, Filipe Sabará, confirma a exigência do documento para quem quiser pernoitar em qualquer um dos 16 CTAs e afirma que a medida é necessária para a organização do fluxo.

Ele nega, porém, que a medida possa acarretar em falta de vagas para quem busca abrigo. “Diariamente a partir das 22h quem está na fila é acolhido ou encaminhado para outro abrigo”, diz.

É a partir desse horário, explica o secretário, que as vagas que ficam vazias para atender as demandas emergenciais — principalmente durante os meses de outono e inverno— são disponibilizadas.

Há dez dias dormindo nas ruas, após ver frustrada a promessa de emprego pela qual trocou Vitória (ES) por São Paulo, o vendedor Jerônimo Mora Filho, 67, vai todos os dias em busca do tal encaminhamento. “Sei que tenho preferência por ser idoso, mas muita gente fica sem vaga.”

De acordo com dados obtidos via Lei de Acesso à Informação, a Prefeitura de São Paulo realizou entre 25 mil e 30 mil acolhimentos por mês entre janeiro e maio deste ano. Os números representam aumento de 40% no número de vagas ocupadas em abrigos em comparação com o mesmo período no ano anterior.

O incremento nos dados da assistência social foi impulsionado pela inauguração de 16 CTAs —imóveis públicos e privados que foram reformados pela iniciativa privada para aumentar a oferta de vagas para moradores de rua na capital.

Mesmo assim, a política pública refletiu pouco —6,5%— no aumento de atendimentos a moradores de rua entre 2016, último ano de Fernando Haddad (PT), e 2017, primeiro ano de implantação dos CTAs.

Isso porque, fora os CTAs, as outras modalidades de abrigos não tiveram investimentos, como as que recebem famílias, crianças, gestantes, convalescentes e idosos.

A maioria das novas vagas oferecida pelos CTAs é voltada a quem é do sexo masculino e solteiro, que também representa o perfil da maioria de quem vive nas ruas.

Por outro lado, a assistência social tem gargalos há anos no acolhimento de determinados perfis de moradores de rua, especialmente famílias.

Além disso, o aumento no número de acolhimentos registrado na atual gestão não foi suficiente para compensar a queda de 10% nos atendimentos registrados no comparativo entre os dois últimos anos da gestão Haddad.

Em boa parte, inclusive, a criação de vagas em CTAs foi absorvida pela explosão do número de pessoas que passaram a viver nas ruas de São Paulo nos últimos dois anos.

Ainda a ser atualizado no ano que vem, o censo da população de rua mais recente é datado de 2015, quando foram contabilizados 15.905 moradores de rua na cidade.

Segundo declarações recorrentes de João Doria (PSDB), atual pré-candidato ao governo de São Paulo, no início de seu mandato como prefeito da capital, a população de rua atual é estimada em cerca de 25 mil —aumento de 57% em dois anos. “A crise econômica influenciou no aumento da população de rua”, diz Sabará.

A defasagem do censo impacta em outro indicador. De acordo com o programa de metas da prefeitura, a secretaria de Assistência Social ultrapassou a exigência de disponibilizar vagas em abrigos a 90% dos moradores de rua.

Se considerar o número atual —25 mil—, o indicador sai da lista de metas cumpridas e cai para 50%, já que o município disponibiliza, atualmente, de 12.550 vagas. “Nossa base de dados é o censo oficial, sendo assim, a meta foi cumprida”, afirma Sabará.

Fonte: Folha de São Paulo

Tendo em vista as baixas temperaturas ostentadas pelos termômetros em boa parte do país, é bem provável que alguém amanheça sem vida, nas ruas de alguma cidade, nesta quarta. A hipotermia terá sido mera consequência uma vez que não se morre de frio, mas de falta de políticas públicas ou de especulação imobiliária. Quem tenta mudar esse cenário, acaba também ameaçado de morte, como vem ocorrendo com o padre Júlio Lancelotti, da Pastoral do Povo de Rua.

Da mesma forma, não se morre por ”desastres naturais”, como as chuvas ou as secas que castigam outras partes do país. Às mortes por falta ou excesso de água deveríamos dar o nome de ”desastres políticos e administrativos” – pois já há tecnologia e protocolos para prever, reduzir e evitar o sofrimento.

Mas por irresponsabilidade e incompetência de gestores, pessoas são levadas pela correnteza ou soterradas em deslizamentos.

Enquanto você lê este texto, trabalhadores escravizados passam frio costurando em oficinas de costura em São Paulo. E outros trabalhadores escravizados respiram fumaça e pó em grandes áreas de desmatamento na Amazônia.

Isso também pode ser evitado uma vez que contávamos com uma boa política pública nesse sentido, criada pelo governo do PSDB e transformada em referência internacional pelo governo do PT, para desespero de quem ama a ultrapolarização.

A prioridade em libertar pessoas, infelizmente, deixou de existir quando o governo federal tentou dificultar essas operações no ano passado. Vale acompanhar o que o novo ministro do Trabalho fará a respeito: resgatar a política ou atender às exigências de empresas que perdem dinheiro com o combate a esse crime.

Brasileiros, bolivianos, chineses, venezuelanos, haitianos que não existem no país em que roupa e carne vem da geração espontânea.

Faz um ano que um homem morreu na esquina da rua Teodoro Sampaio com a avenida Doutor Arnaldo, na capital paulista, após uma noite, uma madrugada e uma manhã muito frias.

Durante horas, seu corpo ficou ali parado, imóvel, enquanto todos passavam por ele, carregando suas vidas.

Ironicamente, aquele pacote de gente – que se foi sem apresentar sinais de violência além da violência inerente àquela situação – estava entre as faculdades de Medicina e de Saúde da Universidade de São Paulo. E a alguns metros do Hospital das Clínicas, mas também do Instituto Médico Legal e do Cemitério do Araçá.

Por aqui, a vida persiste, vencendo o descaso.

Mas isso não significa que ela seja forte o bastante para se fazer notar.

A verdade é que até somos tolerantes com vidas que acreditamos não valerem nada. Contanto que elas não atrapalhem esteticamente a realidade. E não façam barulho ao sair.

Fonte: Blog do Sakamoto

A partir desta quarta-feira (4), a Prefeitura de São Paulo diz que vai começar a retirar famílias que recebem auxílio-aluguel e seguem acampadas no Largo do Paissandu após o desabamento do prédio Wilson Paes de Almeida, em 1º de maio.

Depois da tragédia, a Prefeitura identificou e cadastrou 291 famílias que moravam no prédio e têm o direito de receber o auxílio-aluguel de R$ 1.200 no primeiro mês e depois uma ajuda mensal de R$ 400. Segundo a Secretaria de Habitação, as famílias beneficiadas não poderão mais ficar na praça e se forem identificadas no local, podem perder o benefício (veja íntegra da nota abaixo)

As assistentes sociais também vão negociar a saída das outras pessoas que estão no local, mas que não faziam parte da ocupação. Elas também terão que deixar a praça. A Prefeitura acredita que sejam no máximo 60 famílias, que poderão ir para os centros de acolhida da capital.

A Prefeitura disse ainda que outras famílias acampadas logo após o desabamento e que recebiam auxílio foram deslocadas para casas em uma primeira etapa.

Auxílio-aluguel

Um mês antes do desabamento, a Prefeitura esteve no prédio Wilson Paes de Almeida e cadastrou 171 famílias da ocupação. Depois da tragédia, as assistentes sociais identificaram mais 120 famílias que também moraram no local e incluíram essas pessoas no cadastro para o auxílio-aluguel e fila habitacional.

Esta terça-feira (3) é o último dia para as famílias que têm direito ao benefício retirem o primeiro pagamento no valor de R$ 1.200.

Este valor é pago pelo governo do estado que também assumiu o compromisso de pagar o valor mensal de R$ 400 por um ano. A Prefeitura só vai assumir o pagamento a partir de maio de 2019.

Nota Prefeitura

“A Prefeitura de São Paulo finalizou o atendimento habitacional das vítimas do desabamento e a partir desta quarta-feira (4) intensifica as ações de abordagem junto às famílias no Largo do Paissandú para oferecer acolhimento a quem insiste em permanecer na praça. Nesta terça-feira (3) o município encerrou o atendimento das famílias que comprovaram vínculo com a ocupação apenas na última semana.

Foram analisados casos de 435 famílias que se apresentaram como vítimas sendo que apenas 291 comprovaram morar na ocupação do edifício Wilton Paes de Almeida. As famílias que estão na praça vieram de outras regiões da cidade, não moravam no edifício que desabou e se somam as outras 4 mil pessoas em situação de rua no centro da cidade. A partir de agora, o município segue oferecendo, como desde o início, os serviços de acolhimento nos centros de acolhida com 14,5 mil vagas.

A Prefeitura também vai reforçar a tentativa de realizar a limpeza no local. Por diversas vezes as famílias impediram a limpeza do espaço, a situação de insalubridade aumentou colocando em risco a saúde das crianças, idosos e gestantes. O local apresenta alto nível de sujeira, causando problemas de higiene, atraindo pragas, roedores e baratas e gerando reclamações de moradores e comerciantes da região.”

Fonte: G1

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