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“Café do padre” e “marmita da igreja” atraem filas de dia e de noite na região da Sé.

Passava das 8h da fria manhã de terça e a fila era grande.
Sacos com 150 pães e garrafões com dez litros de café saem da igreja pelas mãos de voluntários, em 15 minutos, tudo terá acabado.

“O que eles fazem por nós aqui é muito bom. Nessa hora, muitos aqui estão sem nada no estômago”, disse Lucilene Souza dos Santos, 38, que vive nas ruas da região.

Quem entrega o pão é uma voluntária, que também costuma se vestir de Papai Noel e distribuir balas na zona sul todos os finais de ano.

“O café quem dá é a Cruz Vermelha. O pão [metade fresco e metade ‘dormido’] vem de uma padaria aqui perto”, disse ela, que faz doações como forma de pagar a promessa que fez depois de se curar de um câncer.

Ela afirma ser favorável à possibilidade de a distribuição do pão passar a acontecer em espaços protegidos de sol, chuva e vento.

“Quando chove, o povo se molha todo para poder comer. Dá dó”, disse.

Quem ajuda ela é um morador de rua. Há mais de dez anos na região da Sé, Natal Francisco de 55 anos come o pão -sem nenhum recheio- só depois de entregar para os demais colegas.

“Todo mundo pode ajudar um pouco. Muitos aqui precisam desse pão”, disse ele.

A distribuição ocorre pouco tempo depois da limpeza diária da Sé e do Pateo do Collegio, onde estão duas das maiores concentrações de moradores de rua do centro.

Às 5h30, um caminhão-pipa chega à Sé para fazer a lavagem da área.  Mesmo diante dos jatos, os moradores continuam dormindo em suas barracas ou sobre o piso sem nenhuma proteção.

Os funcionários da empresa que faz a limpeza dizem que os jatos nunca são disparados em direção às pessoas e suas moradias improvisadas. Já quem vive nas ruas reclama que há desrespeito porque os objetos deles sempre acabam molhados.

Tanto na Sé como no Pateo do Collegio é possível ver recipientes e restos de comida, que também são recolhidos pelos servidores.

“A gente que vive aqui recolhe tudo e separa em caixas toda a sujeira. O pessoal da prefeitura chega e só recolhe. Mas tem gente que pega a marmita e abandona por aí. A gente não concorda com isso, isso é coisa de porco”, disse o desempregado Tiago Barcelos, 34, que vive no Pateo.

À NOITE

Iluminados pelos lustres entre as palmeiras que adornam a igreja, cerca de 500 pessoas fazem nova fila, agora à espera da “marmita da igreja”. É como são chamadas as refeições distribuídas semanalmente pela Igreja Universal do Reino de Deus no marco zero da cidade.

A fila começa a se formar às 19h30, cerca de uma hora antes da chegada das vans que trazem, além da comida, os voluntários da igreja e equipamentos necessários para montar a estrutura para o jantar a céu aberto, sempre precedido de um culto.

Sentados em cadeiras de plástico, eles escutam as palavras do pastor Alessandro Rogério. “É gente que já perdeu tudo. A gente traz a palavra e a comida”, disse.

Após a última citação bíblica do sermão, centenas de sem-teto deixam as cadeiras e correm em direção às mesas onde estão 800 marmitex (arroz, feijão e carne) e café.

Cada um que pega sua refeição corre para vários cantos da praça. Matam a fome ali mesmo, muitos deles de pé, apoiando a comida aos pés da estátua do Apóstolo Paulo. Depois, se espalham novamente, pouco antes de os voluntários recolherem os restos deixados. “Amanhã é sopa”, avisa um sem-teto.

 

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/08/1908663-cafe-do-padre-e-marmita-da-igreja-atraem-filas-de-dia-e-de-noite-na-se.shtml

Fotos do site: Luna Andrade.

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