News

No centro de SP, lixo, pobreza e falta de ação pública disputam espaço

Às 10h, pontualmente como os sinos da catedral, o mais antigo engraxate da praça da Sé abre os trabalhos daquele dia.

O alagoano Lucas Paulino, 85, elegante com seu chapéu de feltro, está lá desde 1954, o ano do 4º Centenário de São Paulo, quando deixou Palmeira dos Índios para arriscar a sorte na cidade grande.

Antes de atender o primeiro freguês, que já está à sua espera, Paulino cumpre calmamente o velho ritual de preparar seu local de trabalho como se fosse uma mesa cirúrgica.

Paulino começa a falar sem esperar a primeira pergunta.

“São Paulo acabou. O Brasil acabou, rapaz. Estou sentindo muito pelos meus bisnetos. Quando cheguei aqui só tinha metade da catedral, foi o Juscelino quem deu o dinheiro para fazer as torres. Meus fregueses usavam terno, gravata e chapéu, era todo mundo muito educado, muito respeitoso. Depois foi mudando tudo, tudo para pior.”

De seu posto de observação no centro da praça, próximo ao Marco Zero da cidade, onde agora uma indigente embriagada está tomando banho de sol num biquíni improvisado, e falando sozinha, Paulino foi vendo a degradação da paisagem humana do velho centro, ano a ano.

Agora, olhando em volta, só vê pivetes andando descalços para lugar nenhum, moradores de rua jogados no chão no meio do lixo, drogados lavando roupa e tomando banho na água suja dos espelhos-d’água, um monte de guardas com diferentes uniformes circulando por todo lado, pastores pregando para ninguém, homens-placa que compram ouro, gente correndo e se espalhando para todo lado quando o helicóptero da polícia sobrevoa a praça.

É a turma da “feira do rolo” itinerante, onde se compra, vende e troca produtos roubados, que se desloca no contrafluxo da polícia, um jogo de gato e rato em clima de constante beligerância.

Em volta do engraxate, sacos de lixo avolumam-se nas calçadas à espera da coleta, junto a pilhas de papelão que servem de cama, cobertores rotos largados no chão, onde muitos ainda dormem no final daquela manhã.

Durante dois dias, a reportagem percorreu 105 km pela região central, onde o ex-prefeito João Doria (PSDB) instalou o projeto Cidade Linda, logo no início do seu mandato de 15 meses.

O slogan contrasta com a realidade das ruas. A praça da Sé nem é o pior exemplo.

A poucos quilômetros dali, no entorno das estações da Luz e Júlio Prestes, onde ficam a Sala São Paulo, a Pinacoteca e o Museu da Língua Portuguesa, o cenário é o de uma cidade abandonada no pós-guerra, no embate permanente entre as forças da ordem e a crescente população de rua, nas calçadas, sob os viadutos e nas praças, arrastando suas tralhas em carroças e carrinhos de supermercado.

Em maio de 2017, após uma grande operação policial, o então prefeito Doria chegou a anunciar o “fim da cracolândia”, mas na verdade deu metástase nesta grande tragédia humana provocada pelo consumo de drogas ao ar livre.

Ela se espalhou por minicracolândias, chegando a Campos Elíseos, Santa Cecília, Barra Funda, Bom Retiro e até Higienópolis, deixando um rastro de sujeira, conflitos e miséria, em meio a um fedor insuportável.

Drogados em fuga permanente agora disputam lugar nas calçadas com famílias de moradores de rua, misturando os “noias” com crianças e idosos das legiões de sem-teto.

É preciso cuidado para ver onde se anda para não pisar nos que passam o dia dormindo nas sarjetas. Na rua Conselheiro Nébias, junto à linha do trem que vai para a Júlio Prestes, dezenas de armazéns abandonados com placas de vende-se e aluga-se estão cercados de sacos de lixo, entulho de obras, pallets e restos de fios de cobre desencapados nas calçadas.

Em volta do Complexo Cultural da Funarte, órgão do Ministério da Cultura, que ocupa todo um quarteirão na rua Apa, em Santa Cecília, mulheres botam para secar roupas e cobertores, enquanto servem comida para os filhos e espantam os cachorros com fome.

Nas floreiras recentemente instaladas na rua dos Gusmões, só não se encontram mais flores: viraram depósito de roupas e servem de cama para os moradores de rua.

Mais adiante, o som do “breganejo” no último volume é o fundo musical das calçadas ocupadas por bancas de marreteiros, que apregoam aos gritos relógios e óculos paraguaios. Depois de uma breve trégua, os camelôs voltaram.

Mas o barulho não é capaz de fazer acordar o homem que dorme um sono profundo na calçada da rua Vitória, sem notar que deitou em cima de um monturo de lixo.

Nas calçadas da Pinacoteca, da Secretaria da Cultura, e do Parque da Luz espalham-se outras minicracolândias com suas barracas formadas por cobertores e papelão.

Ruas são fechadas diariamente pela PM e pela Guarda Municipal para dar segurança aos funcionários da limpeza pública que atiram jatos de água nos fluxos incessantes de drogados.

As cenas lembram o movimento em campos de refugiados na Europa ou dos primeiros anos do garimpo de Serra Pelada, no Pará, em que milhares de miseráveis disputavam migalhas de ouro numa louca corrida pela sobrevivência.

Em SP, tudo gira em torno de alguns gramas de crack, o combustível que move este circo de horrores e só faz crescer a sensação de insegurança de quem mora ou circula por estes pontos históricos da “Cidade Linda”.

À medida em que o desemprego e a miséria humana aumentam, cresce também a revolta desses drogados misturados com sem-teto que não podem ver um fotógrafo por perto, e já começam a xingar e jogar pedras. Nesta guerra sem quartel, todos são inimigos de todos, a começar pela imprensa.

​“É melhor você sumir daqui, se não pode colocar em risco a minha vida e a sua”, recomendou um guarda municipal ao repórter-fotográfico Jorge Araujo, da Folha, que registrava um confronto na alameda Cleveland, na terça (17).

No último censo realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), em 2015, havia 15.905 pessoas em situação de rua.

Para atender a esta população, a prefeitura diz manter 104 centros de acolhida, disponibilizando mais de 14 mil vagas de acolhimento, 4,5 mil delas criadas na atual gestão.

Segundo a gestão Bruno Covas (PSDB), desde junho de 2016 mais de 1 milhão de atendimentos foram feitos pela Secretaria de Assistência Social. “A equipe socioassistencial realiza a busca ativa diariamente, mas não pode obrigar as pessoas a irem aos equipamentos”, diz. Em apoio às redes de atendimento, equipes de zeladoria fazem a limpeza da região da Nova Luz três vezes ao dia e recolhem dez toneladas de lixo, em média.

Fonte: Folha de São Paulo

Share it on

Leave a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Se você tem a chance de fazer o bem, então o faça